O menino que tinha medo de cavalos

abril 18, 2015

O Pequeno Hans

Em 1909, foi publicado por Freud, o trabalho sobre o caso de um menino de cinco anos, atingido por uma neurose fóbica, “medo de cavalos”, filho de um médico conhecido de Freud. O pai suportou o sofrimento de ouvir, com paciência e interesse em favor da melhora do filho, a livre verbalização que possibilitou tratar o menino, através da orientação por cartas com Freud.

Nascido em 1903, aos três anos, Hans demonstrava muito interesse em seu genital, o “pipi”, tocando-o e sendo ameaçado por sua mãe, de ser levado ao médico para cortá-lo fora, que no momento da ameaça aparentemente não foi valorizado pelo menino, mas repercutiu mais tarde. Começa ter uma série de fantasias eróticas, sofrendo de ansiedade, desenvolve várias fobias, inicialmente por cavalos brancos que iam mordê-lo e derivando para meios de transportes da época que ele conhecia.

O pequeno Hans foi piorando com o tempo, as mentiras sobre cegonhas e omissões sobre vaginas, cópula e gestação deixava a criança cada vez mais curiosa. Freud fala para Hans, numa única visita que seu pai o levou, que seu medo é uma bobagem porque gosta da mãe e tem medo do pai, que parasse de se masturbar e não tivesse medo algum de seu pai. O menino aceita o tratamento e esforça-se para não se masturbar. É um período de diálogos entre Hans e seu pai, e cartas com Freud.

Hans reprime a fantasia de castração por não suportar o medo, mas esta emoção foi confirmada quando observou sua irmã no banho e viu que a diferença genital se dava pela ausência do “pipi”. Tentava disfarçar seu medo para si próprio, de ter o seu “pipi” cortado fora com afirmações de que o “pipi” dela era engraçado ou que ia crescer. A ansiedade gerada pelo medo da fantasia de castração encontrou uma saída na manipulação masturbatória de seu órgão, confirmando a posse de seu membro, sentindo-se seguro no momento. Ele obtivera prazer genital durante a higienização feita por sua mãe e quando esta o auxiliava a urinar. Esta situação de prazer físico se tornou o alívio da ansiedade, porém, aumentava seu medo devido a culpa pelo desejo erótico por sua mãe.

Na criança, o desejo de tocar seus genitais é inato, natural e surge pela sensibilidade prazerosa da região pubiana. Logo que é percebido pelos pais sofre uma proibição externa e apesar de ser reprimido, não elimina o desejo, o que faz surgir um conflito continuado. Para Hans, além deste conflito, surge a ameaça de seu “pipi” ser cortado fora pelo médico. O menino sente-se incapaz de se defender por ser totalmente dependente da mãe, que possui poder de vida e morte sobre ele.

Todas estas frustrações, de ser proibido de se tocar, de não ter sua mãe só para si, do medo da fantasia de castração, da omissão de informações sobre a vagina e a gestação, da mentira sobre a cegonha, da falta de objetos pra investir sua libido que eram os amiguinhos, gerou uma falta de capacidade de aceitar a realidade e Hans sucumbiu à hostilidade devido a estes desapontamentos que tanto o preocupavam por seus traumas reais e fantasias de abandono e castração. A fobia surgiu como um deslocamento do medo de que pudesse ser castrado.

Conclusão

O gênio de Freud foi ter sabido distinguir que o problema surgido no garoto tinha a ver com o relacionamento entre os pais e a relação do menino com cada um deles. Sua preocupação não foi com o medo, mas com aquilo que ele tinha por missão ocultar. O menino então desenvolveu uma fobia para nela exprimir sua angústia.

O “medo de cavalos” apareceu no lugar de uma função paterna que se mostrava frágil, incapaz de interditar o vínculo do filho com a mãe. O pai de Hans foi incapaz de intervir nesse vínculo, impossibilitando que ocorresse um corte emocional no relacionamento intenso que se instalou entre o menino e sua mãe.

Assim, podemos entender, através desse caso clínico, que nenhum sintoma é criado pelo filho, isoladamente. Por esse motivo não devemos jamais isolá-lo como pertencendo a ele apenas. Podemos ver, nesse caso, o quanto a criança foi o depositário de um drama que a ultrapassava.

Universidade de Brasília

Teoria psicanalítica

Teoria Psicanalítica I

Carlos Alexandre Virtuoso Ferraris

 

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