Na Barra da Saia

setembro 21, 2015

  • Na Barra da Saia

  • Matéria publicada na Revista MRV
    Edição nº4/jun 2010

    NA BARRA DA SAIA
    O doce lar paterno tem sido a escolha de muitos jovens que já possuem condições financeiras de manter independentes e engrossam o fenômeno da “geração canguru”.
    Rosângela Resende

  • Casa comida e roupa lavada. Se no passado recente essa tríade de confortos não desestimulava aqueles que sonhavam desde a adolescência em ter o próprio lar, no século 21 parece ter o efeito contrário. Somando as regalias contemporâneas, como liberdade no próprio quarto e além dele, opções mil para prolongar os anos de estudos e as exigências de mercado de melhor formação profissional, cada vez mais jovens privilegiam as vantagens de permanecer juntinho dos pais. Chamados de “geração canguru”, adultocentes ou seguidores de Peter Pan, eles somam segunda dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de oito milhões. São homens e mulheres entre 25 e 40 anos. O filho-canguru não tem como característica apenas o fato de não ter saído de casa. Jovens de camadas mais pobres da população não se enquadram nessa definição, porque, na maioria das vezes, seguem morando com a família por falta de condições financeiras para comprar ou alugar uma casa. “O jovem-canguru é aquele que permanece na zona de conforte familiar mesmo ao reunir condições de morar sozinho e estar financeiramente independente”, explica o psicólogo Thiago de Almeida, especialista no tratamento de dificuldade de relacionamentos. As justificativas de quem fica na casa dos pais pode variar, mas não obscurecem o fenômeno de comportamento entre jovens. A vontade de economizar para comprar um imóvel, o incômodo de viver sozinho, a necessidade de cuidar e fazer companhia para os pais idosos, a boa convivência ou a falta de cobranças etc, tudo esta valendo. “Percebemos que tem sido algo recorrente no comportamento e já faz parte dos costumes familiares, onde não há um estranhamento ou questionamento sobre a situação”, confirma a psicóloga e psicanalista Margaret Leivas, do Centro de Estudo, Pesquisa e Atendimento Global da Infância e Adolescência (Cepagia), de Brasília (DF).

    Escolaridade maior
       Um dos reflexos do maior tempo de permanência em casa foi aprendido pelo Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea), com base na Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) de 2008, realizada pelo IBGE. Ao retardar a saída do lar paterno, os jovens-cangurus brasileiros estão aumentando o tempo de estudo e superando a geração anterior em nível de escolaridade. Entre os adultos de 25 a 29 anos, a média de estudo chega a 9,2 anos – o que representa 3,2 anos a mais do que a população com mais de 40. Exemplo dessa realidade Kaline Soares de Souza, 30 anos, pós-doutoranda em Química da Unicamp, morou com os pais até quatro anos atrás. Segunda ela, no meio acadêmico esse comportamento é comum. “Muitos dos meus colegas de pós-graduação vivam a mesma situação que a minha”, conta. Também com formação apurada, duas especializações e mestrado, a funcionária do Ministério da Agricultura, em Brasília., Mariana Guimarães Correa, 37 anos, aponta outra razão para a permanência extendida com os genitores. “O principal motivo é porque eu não gosto de morar sozinha, sinto falta de companhia e, com meus pais, me sinto totalmente a vontade”, pondera. A pesar de a queixa por falta de liberdade não aparecer na fala dos jovens-cangurus, na prática a restrições. A vida sexual por exemplo, em geral é exercida fora de casa. “Sempre tive muita liberdade dentro de casa para convidar os meus amigos. Meus pais gostam, até hoje, de conhecê-los e os tratam como pessoas queridas”, conta a funcionária pública goiana Raquel Guimarães Figueiredo, 36 anos. “Mas se tratando de namorado a coisa é diferente. Acho que na minha geração os namoros eram diferentes. A intimidade sempre foi fora de casa.”

    Adaptações no convívio
       Muitas vezes a permanência prolongada junto à família requer adaptações de estrutura no ambiente. “Em geral, cada um tem seu quarto com banheiro, então cuidamos e modificamos este espaço de acordo com as nossas vontades”, relata a publicitária paulista Mônica Munuera, de 3o anos, que sempre morou com os pais e esta guardando dinheiro para comprar o seu imóvel. As adaptações estendem-se aos hábitos, como o de avisar os pais quando vai chegar tarde ou não vai dormir em casa. “Aviso não porque haja cobrança da parte deles, mas porque existe preocupação em uma cidade violenta como Sao Paulo”, observa o técnico em meio ambiente Antônio Carlos Fernandes, 31 anos. Para Thiago de Almeida, o principal motivo que leva uma pessoa já adulta a morar na casa da família, mesmo tendo condições financeiras para sair, é a conveniência do conforto e o padrão de vida usufruídos. Os quartos, hoje em dia, são verdadeiras minicasas, com todo o aparato tecnológico para o exercício da individualidade: TV, DVD, aparelho de som, computador, telefone, banheiro. “Esse conjunto de benefícios propícia maior permanência da relação familiar e a acarretará o adiamento na vida adulta emancipada com seus ônus próprios”, afirma o psicólogo. Também Margaret Leivas vê alguns riscos no prolongamento da estada na casa dos pais. “Se não houver nenhum comprometimento, seja financeiro ou de sentimento gregário com os demais membros da família, o comportamento gera grande probabilidade de ocasionar dificuldade em partilhar espaço, idéias”, aponta a psicanalista, aconselhando: “se realmente for continuar em casa, ajuda nas despesas gerais, participe das decisões familiares, envolva-se com os objetivos da unidade familiar e saia da integral condição de dependência econômica e efetiva dos ditames dos pais.”

    Abra o olho

    Filho
    -Ficar na casa dos pais por muito tempo traz uma série da perdas: de maturidade e de experiências para a vida.
    -É positivo arriscar-se e enfrentar o desafio de ter o próprio espaço e ganhar autonomia.
    -Colabore com as despesas da casa, participe das decisões familiares e se envolva com seus objetivos.
    -Muitos pais fazem questão que o filho continue em casa. Se houver algum tipo de incômodo, a melhor solução é o diálogo.

    Pai e Mãe
    -Cuidado ao prolongar a adolescência dos filhos. O excesso de mimos pode prejudicar o alcance da independência.
    -Cortar o cordão umbilical é uma atitude que pode certificar aos filhos que eles estão prontos e que os pais acreditam neles.
    -Cobrar responsabilidades, estabelecer limites e exigir que os filhos ajudem financeiramente é processo de educação e conscientização.

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